Tudo o que vem à rede é peixe

25
Mar 08
Uma forma peculiar de geriar a raiva .

 Por vezes, quando se tem um mau dia e precisamos de o descarregar em alguém, não o faça em alguém seu conhecido. Descarregue em alguém que não conheça. Estava sentado à minha secretária, quando me lembrei de um telefonema que tinha de fazer. Encontrei o número e marquei-o. Respondeu um homem que disse:
 - "Está?"
Educadamente respondi-lhe:
 - "Estou! Sou o Luís Alves. Posso falar com a Sra. Ana Marques, por favor?"
Ficou com uma voz transtornada e gritou-me aos ouvidos:
 - "Vê lá se arranjas a m**** do número certo, ó filho da p***!", e desligou o telefone.
Nem queria acreditar que alguém pudesse ser tão mal educado por causa de uma coisa destas. Quando consegui ligar à Ana, reparei que tinha acidentalmente transposto os dois últimos dígitos. Decidi voltar a ligar para o número "errado" e, quando o mesmo tipo atendeu, gritei-lhe:
 - "És um grande parvalhão!" e desliguei.
Escrevi o número dele juntamente com a palavra "parvalhão" e guardei-o. De vez em quando, sempre que tinha umas contas chatas para pagar ou um dia mesmo mau, telefonava-lhe e gritava-lhe:
 - "És um parvalhão!"
Isso animava-me. Quando surgiu a identificação de chamadas, pensei que o meu terapêutico telefonema do "parvalhão" iria acabar. Por isso, liguei-lhe e disse:
 - "Boa tarde. Daqui fala da PT. Estamos a ligar-lhe para saber se conhece o nosso serviço de identificação de chamadas!".
Ele disse "NÃO!" e bateu o telefone. De seguida liguei-lhe, e disse:
 "É porque és um parvalhão!"
Uma vez, estava no parque do Centro Comercial e, quando me preparava para estacionar num lugar livre, um tipo num BMW cortou-me o caminho e estacionou no lugar que eu tinha estado à espera que vagasse. Buzinei-lhe e disse-lhe que estava ali primeiro à espera daquele lugar, mas ele ignorou-me. Reparei que tinha um letreiro "Vende-se" no vidro de trás do carro, e tomei nota do número de telefone que lá estava. Uns dias mais tarde, depois de ligar ao primeiro parvalhão, pensei que era melhor telefonar também para o parvalhão do BMW. Perguntei-lhe:
 -"É o senhor que tem um BMW preto à venda ?"
 - "Sim", disse ele.
 - "E onde é que o posso ver?", perguntei.
 - "Pode vir vê-lo a minha casa, aqui na Rua da Descobertas, Nº 36. É uma casa amarela e o carro está estacionado mesmo à frente."
 - "E o senhor chama-se?..." perguntei.
 - "O meu nome é Alberto Palma", disse ele.
 - "E a que horas está disponível para mostrar o carro?"
 - "Estou em casa todos os dias depois das cinco."  
 - "Ouça, Alberto, posso dizer-lhe uma coisa?"
 - "Diga!"
 - "És um grande parvalhão!", e desliguei o telefone.
Agora, sempre que tinha um problema, tinha dois "parvalhões" a quem telefonar. Tive, então, uma ideia. Telefonei ao parvalhão Nº 1.
 - "Está?"
 - "És um parvalhão!" (mas não desliguei).
 -"Ainda estás aí?" ele perguntou.
 - "Sim", disse-lhe.
 - "Deixa de me telefonar!" gritou.
 - "Impede-me", disse eu.
 - "Quem és tu?" perguntou.
 - "Chamo-me Alberto Palma", respondi.
 - "Ah sim? E onde é que moras?"
 - "Moro na Rua da Descobertas, Nº 36, tenho o meu BMW preto mesmo em frente, ó parvalhão. Porquê?
 - "Vou já aí, Alberto. É melhor começares a rezar", disse ele.
 - "Estou mesmo cheio de medo de ti, ó parvalhão!" e desliguei.
A seguir, liguei ao parvalhão Nº 2:
 - "Está?"
 - "Olá, parvalhão!", disse eu.
 - Ele gritou-me: "Se descubro quem tu és..."
 - "Fazes o quê?" perguntei-lhe.
 - "Parto-te a tromba!" disse ele.
E eu disse-lhe:
 - "Olha, parvalhão, vais ter essa oportunidade. Vou agora aí a tua casa, e já vais ver." Desliguei e telefonei à Polícia, dizendo que morava na Rua da Descobertas, Nº 36 e que ia agora para casa matar o meu namorado gay. Depois liguei para as cadeias de TV e falei-lhes sobre a guerra de gangs que se estava a desenrolar nesse momento na Rua da Descobertas. Peguei no meu carro e fui para a Rua da Descobertas. Cheguei a tempo e ver dois parvalhões a matarem-se à pancada em frente de seis viaturas da polícia e uma série de repórteres de TV. Já me sinto muito melhor. Gerir a raiva sempre funciona.
publicado por RiViPi às 22:23
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