Tudo o que vem à rede é peixe

01
Mar 05
Ao ler as descrições apavorantes dos naufrágios, eu admiro cheio de emoção, tremente e com um calafrio a percorrer-me todo o corpo, os rasgos de coragem e de generosidade. Quando da recente catástrofe do Titanic, chorei vendo nos jornais o retrato da esposa dum milionário americano – uma linda rapariga na força da vida, de lábios que seriam rubros, de braços que enlaçariam divinamente, de colo esplêndido a aparecer pelo decote audacioso, e que nas horas terríveis do agonizar da embarcação salvou mulheres e crianças – deixando-se ficar a bordo para morrer, ela a salvadora de tantas vidas. Eu chorei pensando: Esta mulher formosíssima foi uma criança buliçosa e travessa a quem a vida sorriu sempre. Teve tudo. Brilhou nos salões rutilantes;
Quando ela passava, os homens detinham-se contemplando-a. Foi cortejada, foi amada. Teve como todas o seu primeiro amor, o romance dos seus vinte anos, as suas desilusões, as suas alegrias, as suas tristezas. No seu palácio de Nova-York, rainha encantada, ela viveu envolta em rendas; teve colares de pérolas, diademas de safiras. Girava airosamente pelos corredores e salões – dona de casa vigilante. Amou os dias de sol, as noites de luar, as tardes de Outono – viveu. Os seus dentes agudos de marfim trincaram frutos vermelhos, frutos dourados; as suas mãos de fada, pálidas e longas, colheram rosas, violetas, camélias, anémonas fantásticas, orquídeas… Na sua vida houve talvez um grande amor. E eu vi, na realidade vi, uns lábios de homem amado pousar sobre os seus num recanto solitário duma sala de baile imensa, resplandecente; eu vi todo o seu corpo nu, admiravelmente nu, oferecendo-se louco aos beijos do amante. E eu chorei: Essa criatura divina, essa mulher que vivera, que amara, que rira e que chorara, hoje, ali em pleno oceano, esquecida de tudo, corria pelo convés trágico e salvava, arrebatava à morte entre os seus braços – mãe extremosíssima – os filhos das outras mães! Os minutos iam passando, a embarcação mergulhava cada vez mais na profundeza… Aquele corpo grácil, num misticismo, numa exaltação, corria pelo convés esquecido de si próprio na sua tarefa sublime… Os barcos estavam cheios; ela ajudara-os a encher, e nem pensou em exigir um lugar dentro deles! Fatigada, sentou-se, cruzou os braços, e gentilmente esperou a morte, desapareceu no oceano, como gentilmente vivera… Pobre corpo de amor, pobre alma generosa! Fora aquele navio o último salão em que dançara, o último leito em que amara. Eu chorei, eu tive uma pena infinita desse lindo rosto de mulher; eu amei-a, ah! sim, amei-a um segundo com todas as forças da minha alma! Eu chorei…
Mas tudo isto, tudo isto é literatura… tudo isto é excepcional…
Voltemo-nos: Nessa mesma catástrofe nós vamos encontrar a vida verdadeira, que é horrível – e são os dois italianos que foram mortos a tiro porque primeiro que todos os outros homens, que todas as mulheres, que todas as crianças – queriam embarcar, queriam viver. Viver! Mas há lá desejo mais nobre, mais sagrado!? Os homens, incorrigíveis poetas é que transformando, transtornando, invertendo tudo, fizeram do desprezo pela vida uma das mais nobres virtudes – da mesma forma que converteram o amor numa secreta vergonha que se oculta às crianças com o maior dos escrúpulos. Eis a superioridade dos homens: a inversão dos sentimentos naturais, que é realmente uma superioridade porque traduz uma revolução: os animais, seres inferiores, não se revoltam, aceitam a natureza. Revolução estulta, porém. Quem possui o melhor não se deve revoltar para ter o pior. E a natureza ainda é uma das raras coisas que não vale a pena aperfeiçoar, porque aperfeiçoá-la quanto aos sentimentos é sempre prejudicial.
- Quer dizer – gritam-me – Com todo o seu palavreado chocho deseja você significar que admira esses italianos cobardíssimos, que considera criminosos que os abateu à bala.
Perdão. Eu sou um homem. Não os admiro; à primeira vista mesmo, enoja-me, revolta-me o seu exemplo. Mas penso, desculpo-os e sinto – bem alto o declaro – uma infinita piedade por eles. Simplesmente a minha dor é serena; não estremeço nem choro como diante do rosto lindo dessa mulher sublime.
Literatura, meus amigos, literatura…



Mário de Sá Carneiro, Primeiros Contos (Incesto)
publicado por RiViPi às 04:40

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