Tudo o que vem à rede é peixe

06
Mar 05
As obras lexicográficas têm como objectivo o estudo das unidades lexicais e dividem-se em vocabulários, glossários e dicionários. Os vocabulários referem-se a subsistemas da língua, como áreas técnicas ou científicas, enquanto que os glossários são mais específicos, debruçando-se sobre a linguagem individual de um autor (o seu idiolecto) ou sobre uma obra. Os dicionários, por seu lado, tratam normalmente todo o léxico de uma língua.
A Lexicografia é um ramo da Lexicologia (estudo do léxico) que se dedica à análise dos dicionários, através da Dicionarística, para além de elaborar a teoria para a sua realização, através da Metalexicografia. Os dicionários são, tal como as gramáticas, elementos de descrição da língua, mas enquanto estas apenas dão conta dos seus fenómenos regulares, aqueles tratam do significado das suas unidades lexicais.
Os dicionários podem ter um suporte informático ou impresso, sendo que os primeiros permitem uma consulta mais rápida e flexível, para além de serem mais facilmente actualizáveis. Actualmente, mesmo os dicionários de suporte impresso têm uma base de dados lexicais recolhida por meios informáticos, embora nenhum destes suportes dispense a intervenção humana através da triagem. No que diz respeito ao formato, os dicionários variam entres os de bolso e os de vários volumes.
A forma como a informação linguística é tratada no dicionário vai definir a sua tipologia, diferenciando-se imediatamente os dicionários de língua, que classificam e definem as unidades lexicais, das enciclopédias, que definem essencialmente entidades não linguísticas. Existem ainda dicionários enciclopédicos que conciliam a informação linguística com a informação geral.
Em relação à sua função, os dicionários podem ser monolingues, quando definem as palavras listadas; bilingues, quando apresentam equivalentes dessas palavras noutra língua; ou multilingues, quando apresentam equivalências em mais do que uma outra língua. Quanto à sua abrangência, um dicionário pode ser geral, registando o maior número possível de palavras e acepções; de aprendizagem, limitando ao básico número de entradas; ou especializado, limitando-se a uma determinada área da linguagem ou mesmo ao idiolecto de um autor. Os dicionários especializados apresentam dificuldades de inclusão, já que a barreira entre vocabulário geral e especializado é flexível. A sua variação pode ser diatópica (dicionário de dialectos), diastrática (dicionários de gírias), diatécnica (dicionários terminológicos), diafásica (dicionários de calão), diaintegrativa (dicionários de estrangeirismos) ou dianormativa (dicionários de correcção linguística).
Os dicionários podem ser descritivos se apenas definirem as entradas; ou normativos se apresentarem orientações fonéticas e ortográficas. Os dicionários normativos costumam conter abonações e hesitam em incluir neologismos, estrangeirismos, regionalismos, gírias ou calão. Os dicionários podem ainda ser sincrónicos, se apenas explicarem o significado das entradas; ou diacrónico, se derem conta da origem, dividindo-se então em etimológicos (dão conta apenas da sua origem) e históricos (apresentam toda a sua evolução). Os dicionários podem também ser onomasiológicos (centrados no emissor), servindo então para a codificação (fornecem os significantes correspondentes a um significado) ou semasiológicos (centrados no receptor), servindo então para a descodificação (fornecem os significados possíveis de um significante).
Os dicionários onomasiológicos baseaim-se em imagens (pictóricos), servindo ainda para indicar a pronúncia (ortoépicos) ou a grafia (ortográficos) correcta das palavras. A combinação dos significantes é tratada por dicionários de formação de palavras ou de regimes. Existem ainda dicionários de dúvidas que se debruçam sobre dificuldades de pronúncia, ortografia, construção ou regimes. Os dicionários onomasiológicos costumam ter uma orientação normativa.
Os dicionários semasiológicos, por seu lado, baseiam-se apenas na definição das palavras da língua, representadas pela sua ortografia vigente. Alguns dicionários como os de fraseologia têm como entradas monemas (unidades mínimas de significantes) e não palavras. Outros dicionários semasiológicos são os de neologismos e estrangeirismos. As entradas destes dicionários costumam ser agrupadas por ordem alfabética, enquanto que nos onomasiológicos são ordenadas por matérias, embora exista normalmente um índice alfabético.
Os dicionários onomasiológicos são normalmente monolingues, mas os semasiológicos podem também ser plurilingues (bilingues ou multilingues), indicando não o significado dos significantes, mas a sua tradução para outras línguas. Os dicionários multilingues costumam agrupar os significantes em colunas paralelas, uma para cada língua, e exigem uma correspondência absoluta entre monemas, pelo que costumam limitar-se a um âmbito terminológico.
Tanto um dicionário geral como um parcial podem ser exaustivos ou selectivos, consoante o seu objectivo de descrever a totalidade da língua ou apenas os seus lemas mais pertinentes, através da frequência de uso ou da racionalidade, incluindo então também palavras relacionadas com as mais frequentes. Existem também dicionários paradigmáticos, que tratam da relação entres os significantes, como os dicionários de sinónimos ou antónimos. De notar ainda os guias de conversação, destinados a aprendentes estrangeiros, que ordenam as entradas por situações de comunicação, e dicionários de estilo, de pendor normativo.
Toda a informação presente num dicionário está organizada em macro-estrutura e micro-estrutura. A macro-estrutura consiste no conjunto de entradas e em todos os complementos do dicionário, como o prefácio, a lista de abreviaturas ou um apêndice gramatical. Na macro-estrutura devem estar indicados os critérios utilizados na elaboração do dicionário e o público a que este se destina.
A micro-estrutura, por seu lado, consiste nos verbetes relativos às entradas, devendo todas as palavras utilizadas no verbete ser definidas numa entrada própria. Os verbetes compreendem informação geral (etimológica, geográfica, de domínio e nível de língua, de vigência de uso), gramatical (de categoria linguística) e semântica (definição), com possíveis exemplos reais ou forjados. O tipo e a quantidade de informação dependem da tipologia do dicionário e do seu público-alvo.
Dependendo da sua tipologia, que define o utilizador a que se destina, os critérios de avaliação do dicionário vão variar, embora deva sempre existir uma coerência interna e um permanente respeito pelos objectivos estabelecidos no prefácio. A macro-estrutura e a micro-estrutura devem ser claras e informativas, sendo de evitar a redundância (agrupando definições idênticas na mesma entrada) e a circularidade (definindo uma unidade em vez de a remeter indefinidamente).
Para além de um critério rigoroso, que deve evitar redundâncias e circularidade, um dicionário deve possuir um sistema de remissões, que facilite a sua consulta. Estas remissões podem ser formais, remetendo para palavras homógrafas, homófonas ou parónimas; morfológicas, remetendo para o lema de palavras irregulares; ou semânticas, remetendo para sinónimos, antónimos, hiperónimos ou hipónimos.
As palavras homónimas (com a mesma forma, mas origens diferentes), sejam elas convergentes (provenientes da evolução dos étimos latinos) ou estruturais (provenientes de diferentes construções morfológicas) devem estar em entradas diferentes, ao contrário das palavras polissémicas (com a mesma forma e origem), que, por provirem de derivações semânticas (metáforas, metonímias ou sinédoques), devem ficar na mesma entrada. Esta ambiguidade linguística, a par com a difícil actualização e a falta de sistemacidade, torna a manutenção da coerência dicionarística bastante difícil.
Pedro Caeiro (apontamentos)
publicado por RiViPi às 05:38

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