Tudo o que vem à rede é peixe

24
Abr 10

Há anos que o 25 de Abril, para além do sermão presidencial na assembleia da república, anda atrelado ao carro da esquerda, especialmente ao da esquerda comunista. A apropriação esquerdista, consentida pelos “capitães de Abril”, reduziu a efeméride a uma espécie de outro 5 de Outubro, celebrado apenas por sectários. No entanto, o 25 de Abril não foi originalmente feito simplesmente para implantar o socialismo. E, a propósito, também não foi feito simplesmente para implantar a democracia. As ditaduras não comoviam então muita gente, ou, melhor, comoviam quando eram protagonizadas pela seita do outro lado: a esquerda achava abomináveis e inexplicáveis as ditaduras de direita, e a direita achava inexplicáveis e abomináveis as ditaduras de esquerda. Mas nesses anos poucos acreditavam que o futuro da humanidade passasse pela democracia liberal. Só cerca de metade dos estados soberanos que existiam então na Europa eram democracias representativas. No mundo, no ano 1972, em 145 estados independentes, a Freedom House classificava como totalmente “não-livres” 46,2 por cento, e como inteiramente “livres” apenas 29 por cento. Ninguém considerava as ditaduras incompatíveis com o progresso, pelo contrário. A prova era que Portugal registava então taxas de crescimento económico das maiores do mundo – calculou-se depois que, caso Portugal tivesse mantido esse ritmo de crescimento, teria atingido o nível de riqueza médio dos estados da Europa ocidental em 2009. Os últimos anos do Estado Novo foram, de resto, o início de uma grande transformação: começaram a esvaziar-se as aldeias e a emergir uma nova classe média urbana. O que justificava as ditaduras como a portuguesa era, em geral, a polarização ideológica do mundo entre os Estados Unidos da América e a União Soviética. Tanto os ditadores de esquerda como os de direita explicavam que a liberdade tinha sido uma coisa própria do século XIX, mas que fazer eleições abertas a todos ou levantar a censura à imprensa, seria apenas ajudar o “outro lado” a subverter a ordem pública da qual dependia o progresso social e económico. A esquerda comemorava desvanecidamente Mao Zedong e Fidel Castro, em cima das suas respetivas pilhas de cadáveres; a direita, mais discreta, descobria aspetos positivos nas ditaduras militares latino-americanas.

Isto não quer dizer que o regime autoritário fosse estimado por todos os portugueses. Em 1973, numa sondagem à opinião pública metropolitana nas cidades com mais de 10 000 habitantes, a percentagem dos entrevistados que concordou com a frase “é melhor que um homem competente tenha autoridade e decida por nós” foi de 20,5 por cento, enquanto 65,8 por cento preferiram a frase “é melhor que todos nós nos interessemos e consideremos responsáveis”. É verdade que tal escolha não significava necessariamente oposição ao regime, porque o interesse e a responsabilidade de todos eram temas em que o chefe de governo, Marcello Caetano, insistia muito. Mas era óbvio que o Estado Novo não conseguiria tornar-se o quadro dessa participação: só 34,4 por cento dos inquiridos estavam recenseados, e apenas 21, 3 por cento tinham votação nas eleições legislativas de 1969. Os grupos mais críticos do governo eram a classe média alta e as pessoas com nível de instrução superior, por contraste com o que os inquiridores designavam como “o conformismo das classes baixas”. Em todos os grupos, as maiores taxas de desaprovação da política do governo encontravam-se a propósito de questões sociais e económicas, como a “habitação” (39, 6 por cento contra) e o “custo de vida” (36, 4 por cento). Era natural, no momento em que o próprio Caetano admitia o fim das “vacas gordas”: entre 1973 e 1974, o crescimento económico abrandou e a inflação, ajudada pela subida dos preços do petróleo, pulou de uma taxa média de 5,2 por cento (no período de 1965-73) para uma taxa de 25 por cento (entre março de 1973 e Março de 1974). No que diziam respeito à “liberdade de reunião e associação”, 19,7 por cento dos inquiridos em 1973 desaprovavam a política do governo, mas 25,8 por cento aprovavam ( os outros não respondiam). Mas no que se referia à “informação e censura”, as proporções invertiam-se: 30, 4 por cento desaprovavam e apenas 17, 4 por cento aprovavam. Havia mais gente que queria ser informada livremente do que gente que preferia ver a informação paternalmente administrada pelo arbítrio governamental.

Mas não foi para acabar com a censura nem para parar a inflação que se fez o golpe de 25 de Abril de 1974. As razões do golpe não tiveram que ver com a natureza ditatorial do governo de Portugal ou com a subida dos preços do petróleo, mas com os problemas decorrentes da natureza do estado português enquanto agregação de territórios em vários continentes. Desde a década de 1950, que tanto os EUA como a União Soviética contestavam os impérios adquiridos na África e na Ásia pelos estados da Europa Ocidental. Ao contrário de outros impérios coloniais, como a própria União Soviética ou a China Comunista, os impérios ocidentais eram facilmente reconhecíveis por serem territorialmente descontínuos: eram, em geral, ultramarinos. O “ultramar português” estava nesse caso. A 15 de Dezembro de 1960, a assembleia geral das Nações Unidas aprovou, por 68 votos a favor, 6 contra, e 17 abstenções (entre elas, a dos EUA), a resolução 1542 que definia como “territórios não autónomos” todos os territórios ultramarinos portugueses. O governo português, que entrara na ONU em 1955, protestou que tinha sido violada a Carta da organização, a qual estipulava que cabia a cada estado membro declarar quais dos seus territórios se poderiam classificar como não-autónomos. Poucos meses depois, vários partidos independentistas ilegais, com base no estrangeiro, iniciavam uma sublevação armada no norte de Angola.

Em 1974, a guerra contra os partidos separatistas armados no ultramar durava havia treze anos. Em 1973, cerca de 90 000 jovens oriundos da metrópole cumpriam serviço militar em África – o equivalente a 1 por cento da população metropolitana. Não admira que, em 1973, a citada sondagem à opinião revelasse que, quando perguntamos acerca de qual era “o objetivo político mais importante para os próximos anos”, 53 por cento dos inquiridos tivessem respondido “que haja paz”, e apenas 3,7 por cento “que exista democracia”. É pela guerra em África que precisa começar quem quiser perceber o golpe de 25 de Abril de 1974.

 

Rui Ramos, Outra Opinião, Ensaios de História, ISBN 972-9437-21-1, pág. 59-62

publicado por RiViPi às 19:50
sinto-me: Rui Ramos, historiador
música: C1

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Muito bom este texto! E engraçado também!
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