Tudo o que vem à rede é peixe

05
Out 09
Hoje é feriado em Portugal. Celebra-se o 5 de Outubro. Dia da implantação da república que ocorreu em 1910. O rei foi assassinado e toda a sua máquina governativa foi deposta. Por isso, compreendo que esta data não tenha sido celebrada na época e que muitos dos actuais seguidores da monarquia não a celebrem também. Já passaram quase cem anos. Vivemos no que chamos a 2º República que surgiu após o fim da ditadura de Salazar que foi o resultado do fracasso da 1ª República. Longe do debate do ínicio do século, os defensores dos antagónicos sistemas governativos parecem levantar de novo o debate. A conjuntura económica, política e social actual pouco tem da do início do século mas ainda assim parece haver alguns ódios intestinais. O Bom Português apresenta em seguida dois artigos retirados do jornal i para que o leitor entre no debate.

Daniel Oliveira[i]: Quero um plebeu como eu
É possível haver democracia numa monarquía? Claro que é. A mais velha democracia do mundo tem uma rainha e até tem uma Câmara dos Lordes. Nada de novo: as democracias sempre conviveram com elementos antidemocráticos vindos do passado. O que é antidemocrático na causa monárquica é isto: contraria a ideia simples de que todos nascemos livres e iguais. Aceitar que uma família pode ser o símbolo de uma nação, por mais incapazes ou impopulares que sejam os seus elementos, é negar os fundamentos da democracia. Aceitar que eu e o meu caro leitor estamos impedidos, por não termos o sangue certo, de chegar à chefia de Estado do nosso país é, mesmo que pareça inofensivo, uma violência política.
É também a negação do mérito. E isso explica porque entre os monárquicos estão, maioritariamente, descendentes de famílias que foram aristocratas. A nostalgia que sentem é a de um tempo em que o seu valor era indiferente ao que faziam ou contruiam na vida. E não me venham falar de monarquias liberais ou constitucionais. O resultado lógico do fim do governo do rei seria, como foi em quase todo o lado, o fim da própria monarquia e dos seus símbolos anacrónicos. Em alguns países com problemas de coesão nacional (Reino Unido, Bélgica, Espanha), eles sobreviveram como instrumento de unidade contra os perigos do voto. Podemos compreender. Mas é apenas um mal menor dispensável em Portugal.
Quando fazemos do Presidente o símbolo da nação, fazemo-lo porque ele representa o povo materializado através do voto e da escolha do melhor entre os seus. Em democracia, que é a única forma de governo republicano legítima, o presidente representa a unidade depois da divisão, do debate e da escolha. Numa monarquia, o rei representa a continuidade de um privilégio, a ausência de debate e confronto, a unidade imposta e vinda do passado. Numa república, a nação é o seu povo na figura do presidente. Numa monarquia, o povo é a sua nação na figura do rei. Por isso, numa república, o cidadão comum é elegível para todos os cargos. Por isso, numa monarquia, o cidadão comum está condenado à condição de súbdito.
O que os rapazes do 31 da Armada, todos com nomes sonantes e cheios de história, exigiram quando treparam à varanda dos Paços do Concelho foi que lhes fossem devolvidos os privilégios do passado. Não serão. Que me lembre, nunca nenhuma república passou a monarquia na vigência de uma democracia. Porquê? Porque nós, os plebeus, somos a maioria. E a maioria de nós, de sangue apenas vermelho, prefere escolher entre os seus quem melhor a represente. Já passaram quanse cem anos. Já se podiam ter habituado à ideia.
 
Rodrigo Moita Deus[ii]: A luta continua, o rei para a rua!
Em Portugal não há republicanismo.Nem doutrina republicana.Nem sistema republicano. O que existe é uma longa tradição antimonárquica.
Sim. É verdade. Os monárquicos são uma minoria. Dez por cento dos portugueses. Se tanto.Os republicanos são outra minoria. Dez por cento dos portugueses. Se tanto.
Os outros 80% são “marimbistas”. Ou seja, estão a marimbar-se. O que não é bom. Nada bom mesmo.
Dez por cento são republicanos – e duvido que o sejam mesmo. Em Portugal não há republicanismo. Nem sistema republicano. Nem doutrina republicana. O que existe é uma longa tradição antimonárquica. A vantagem de um sistema republicano, dizem eles, é evitar as desvantagens de um sistema monárquico.
E por isso mesmo não se consegue discutir a questão do regime. Os argumentos não giram em torno da bondade das propostas. Os argumentos giram em torno dos palácios dos marqueses, das herdades dos duques e das fortunas dos condes. Discutimos a vida dos outros, os seus privilégios e a sua vida. A sua qualidade de vida.
Cento e sessenta anos depois da publicação do “Manifesto Comunista”, discutimos a questão monárquica como se fosse o derradeiro episódio da eterna luta de classes. Discutimos sempre a aristocracia. Luta de classes. À antiga marxista. O que não deixa de ser irónico.
Cem anos depois, os únicos que têm palácios, herdades e fortunas são os comendadores da república. E aqueles que mais brincam com os anéis de brasão herdam orgulhosamente medalhinhas republicanas.Mais recentemente até se instituiu o hábito de herdar círculos eleitorais.
À semelhança de todos os sistemas que acreditam na luta de classes, a república tem uma estranha forma de lidar com a redistribuição de riqueza. Tal como tem uma estranha forma de lidar com a democracia.Porque na luita de classes há sempre “ intelectuais” que devem “guiar” o proletariado e o campesinato analfabeto.Os mesmo “intelectuais” que proibiram constitucionalmente os portugueses de escolher entre monarquia e república. Eles sabem o que é melhor para nós. Para o povo. E em quase cem anos fica o regime a dever-nos 16 de caos, 41 de ditadura e três de PREC.
Assim vamos. Guiados pelos intelectuais do outro século. Pelos preconceitos do outro século. A discutir a questão do regime como se estivéssemos a falar da revolução industrial. Tenho más notícias: os tempos mudaram. E, um destes dias, temos mesmo de discutir a questão.
Bem sei. Temos assuntos mais urgentes para tratar. A crise, o défice, a gripe e os laterais do Benfica. Tudo é mais urgente.A forma de Estado é importante mas não é urgente. E o urgente nunca deixa tempo para o que é importante.Mas andamos de urgência em urgência há noventa e nove anos. E não consta que tenha resultado.  

[i] É colunista do semanário “Expresso” e do “Record”, comentador do Eixo do Mal, na SIC/Notícias, ex -jornalista e fundador do Bloco de Esquerda, partido de que foi dirigente.

[ii] Tem 31 anos e 3 filhos. Foi jornalista, passou pela Assembleia da República, pela Fundação Champalimaud – e hoje é consultor na LPM. É um dos editores fundadores do blogue 31 da Armada e esteve envuelto no episódio da bandeira na Câmara de Lisboa.

publicado por RiViPi às 16:04

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