Tudo o que vem à rede é peixe

15
Jun 09

A velhinha chega à peixaria e pergunta: "Tem jaquinzinhos?" Mal a peixeira disse "Temos sim, minha senhora", ela fez o pedido: "Então corte-me aí duas postinhas do meio!" Pelo conteúdo genuinamente português, esta é a minha história preferida do vasto anedotário produzido no nosso país a propósito da crise. As anedotas que nos desaconselham de tomar café (esse dinheiro dá para comprar uma acção do BCP), ou a dar os 50 cêntimos ao arrumador (com essa moedinha compra uma acção da Sonae SGPS e ainda recebe troco) também têm graça. Mas, para mim, a melhor é mesmo a dos jaquinzinhos.

No dia-a-dia, somos macambúzios. Quando um espanhol encontra outro na rua e lhe pergunta "como estás?", recebe de volta um "de puta madre!", ou "fenomenal". Quando fazemos essa pergunta a um português, arriscamo-nos a que ele nos responda que o colesterol já está controlado, mas as tensões nem por isso e o açúcar não pára de subir. Somos uns tristes, mas a quantidade e qualidade das graçolas sobre a crise revelam que somos criativos (e a criatividade é uma competência apreciada) e dotados de uma estranha capacidade masoquista para fazer graça com a nossa desgraça.

A nossa criatividade exprime-se ainda através do desenrascanço, a enorme capacidade de improvisar, que é outra competência. O problema é que, apesar de termos competências invejadas, a riqueza criada por hora trabalhada em Portugal é das mais baixas de toda a UE. E a tendência não é para melhorar. Entre 2001 e 2006, a nossa produtividade cresceu 0,7%, bem abaixo dos 1,3% da média europeia.

Em conversa com a directora de Recursos Humanos da Microsoft Portugal, eleita pelo quarto ano consecutivo a melhor empresa para trabalhar, Teresa Nascimento surpreendeu-me com uma frase arrebatadora: "Temos vergonha de sermos portugueses. Isso de trabalharmos pior que os outros é tudo uma mentira e uma palermice. Não passa de lixo que nos põe na cabeça quando somos pequenos." Teresa documentou esta afirmação com a performance, claramente superior à média das multinacionais em que estão inseridas, de empresas como a sua e a Autoeuropa. A produtividade dos nossos emigrantes dá-lhe razão. O Luxemburgo, onde 20% da população activa é portuguesa, é o 4.º país mais produtivo do mundo, o que levou Jorge Vasconcelos Sá a fazer umas contas curiosas. Se os portugueses emigrados no Luxemburgo viessem cá fazer o nosso trabalho, podiam entrar de fim-de-semana às 17 horas de 3.ª-feira - pois já tinham produzido tanto como nós numa semana de cinco dias. Em alternativa, podiam parar de trabalhar a 15 de Maio.

Se temos competências elogiadas e somos capazes de altos níveis de produtividade, sou forçado a concluir que o defeito está nos chefes, não nos índios. Se calhar, os dinheiros da formação deveriam ser aplicados a ensinar os empresários a liderar. E se contratamos treinadores de futebol e maestros estrangeiros, porque não importamos políticos e empresários que saibam tirar partido das nossas capacidades para fazer o País andar para a frente?

Fonte: Jorge Fiel (jornalista), 15 de Fevereiro de 2009 in Diário de Notícias

publicado por RiViPi às 00:05

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