Tudo o que vem à rede é peixe

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Mai 09

Uma mudança ortográfica justificar-se-ia, em nosso entender, houvesse ou não houvesse Brasil, houvesse ou não houvesse Países Africanos. Uma reforma ortográfica justifica-se, numa dimensão intra-sistémica, para manter o equilíbrio de um dado sistema. Intervenções ortográficas são defendidas desde há séculos, desde épocas em que o Brasil tinha um peso negocial insignificante.

A maior intervenção ortográfica teve lugar em 1911, dinamizada por uma comissão de ilustres filólogos (D. Carolina Michaelis de Vasconcelos, Gonçalves Viana, Candido de Figueiredo, Adolfo Coelho, Leite de Vasconcelos, José Joaquim Nunes e outros...) e o Brasil (mal na nossa opinião) não foi sequer consultado (só em 17 de Janeiro de 1912 a Academia Brasileira seria convidada a participar nos trabalhos). Apesar desse grave "incidente", houve no Brasil vozes favoráveis à adopção da Reforma (Anternor Nascentes e Sousa da Silveira são dois ilustres exemplos). O desacordo estava, porém, criado e era da nossa responsabilidade.

A Júlio Dantas devem-se os passos mais significativos no sentido de se chegar a um "acordo" com o Brasil que pudesse atenuar o "abismo" então criado. Tal acordo, ratificado em 1931, teria um percurso conturbado, pois o Brasil iria oscilar entre adopções e rejeições sucessivas. A tentativa mais conseguida iria decorrer em 1945, e a ela nos referiremos adiante.

Do que ficou dito, parece natural a reacção brasileira. Todavia, o problema deve ser visto sob um ângulo diferente. Uma reforma ortográfica tem razão de ser, como dissemos, por razões de política externa, certamente; mas justifica-se principalmente por razões internas do próprio sistema linguístico. Mesmo que não houvesse outros países, uma reforma ortográfica impor-se-ia por razões que avançámos já num outro trabalho*.

Temer que Portugal seja invadido culturalmente pelo Brasil parece-nos um receio injustificado. Por um lado, é ter Portugal e os portugueses em bem pouca conta e, por outro, é ter da cultura portuguesa uma visão excessivamente negativa. Foi sempre esse o argumento mais forte dos puristas contra os estrangeirismos (cf. Rodrigues Lapa, 1977) e, no entanto, foram muitos desses estrangeirismos que emprestaram à nossa língua muito do vigor que ela hoje tem. Portugal já foi invadido várias vezes e não pode dizer-se que a nossa cultura tenha sido destruída. Poderemos nós ignorar as contribuições do árabe, do castelhano, do francês, do inglês, do germânico?

in O Acordo Ortográfico, Francisco Álvaro Gomes
publicado por RiViPi às 23:27

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